Com juros elevados e bancos e mercado de capitais reduzindo a oferta de crédito, fundos especializados em ativos estressados começam a encontrar novas oportunidades no Brasil
O mercado de crédito corporativo brasileiro atravessa um período de maior restrição de liquidez, com juros elevados pressionando empresas e aumentando os casos de recuperação judicial. Nesse cenário, fundos especializados em special situations começam a ganhar espaço ao oferecer capital para companhias que enfrentam dificuldades financeiras, mas ainda apresentam capacidade de recuperação.
Para Alexandre Cruz, CEO e fundador da JiveMauá, o problema está justamente na redução da oferta tradicional de crédito. Segundo ele, bancos e mercado de capitais já não conseguem atender toda a demanda das empresas por recursos.
“Não tem dinheiro para todo mundo.”
A taxa de juros permaneceu acima de dois dígitos desde março de 2022, elevando o custo de financiamento e pressionando a geração de caixa das companhias.
De acordo com o executivo, os bancos aumentaram suas carteiras de crédito tradicional em cerca de 9,2% no ano passado, mas o crescimento desacelerou para aproximadamente 8,1% a 8,2% no primeiro semestre deste ano.
Ao mesmo tempo, as emissões no mercado de capitais, incluindo CRIs, CRAs, notas comerciais e debêntures incentivadas, recuaram entre 12% e 14%.
Com isso, empresas que anteriormente conseguiam acessar diferentes fontes de financiamento passaram a enfrentar mais dificuldades para obter liquidez.
Apesar do aumento dos riscos, a restrição de crédito pode criar oportunidades para investidores especializados.
A estratégia consiste em identificar empresas que enfrentam problemas temporários de liquidez, mas possuem ativos, geração de caixa ou garantias suficientes para permitir uma recuperação.
Nos fundos imobiliários, por exemplo, a JiveMauá busca ativos estratégicos, principalmente no setor de logística. Uma recuperação judicial de um inquilino pode provocar uma queda nos preços dos ativos, mas também criar uma oportunidade de entrada com maior potencial de dividendos.
Os chamados special situations são investimentos em ativos que apresentam algum tipo de estresse ou problema específico, como inadimplência, disputas judiciais, questões trabalhistas, ambientais ou dificuldades financeiras.
A estratégia pode ocorrer de diferentes formas.
Uma delas é conceder novos empréstimos para empresas que enfrentam problemas de liquidez, utilizando estruturas e garantias capazes de proteger o investidor.
Outra possibilidade é adquirir dívidas corporativas inadimplentes com desconto, buscando recuperar o valor posteriormente.
Também existe a combinação das duas estratégias: comprar uma dívida com desconto, aportar novos recursos e participar da reestruturação da empresa.
Para Cruz, o principal risco para uma empresa não está necessariamente no tamanho da dívida, mas na falta de dinheiro em caixa para manter as operações.
Uma companhia pode possuir uma dívida elevada e ainda conseguir se recuperar caso tenha acesso a capital suficiente para pagar fornecedores, funcionários e demais compromissos essenciais.
Por isso, a tese dos fundos de special situations é encontrar empresas que ainda possuem capacidade operacional, mas precisam de liquidez para atravessar o período de estresse.
Nesse ambiente, setores de infraestrutura aparecem entre os mais atrativos para a gestora, especialmente áreas como tecnologia, cabeamento, data centers, concessões, energia e mobilidade.
A preferência está relacionada à maior previsibilidade da geração de caixa e à existência de ativos reais que podem oferecer proteção ao investidor.
O varejo, por outro lado, exige maior cautela devido à maior sensibilidade ao consumo e às condições econômicas.
No agronegócio, apesar dos choques recentes e das mudanças na demanda internacional, ainda existem oportunidades para investidores capazes de avaliar individualmente cada operação.
A entrada em ativos estressados exige um diagnóstico detalhado da situação financeira da empresa.
Segundo Cruz, esse processo pode levar meses até que seja possível compreender completamente o problema e definir uma estratégia de investimento.
A precificação também precisa considerar cenários negativos, incluindo uma eventual recuperação judicial e a possibilidade de perda de clientes e fornecedores.
A lógica é criar uma margem de segurança suficientemente grande para que o investimento ainda apresente retorno mesmo em um cenário adverso.
A experiência da JiveMauá mostra que empresas em dificuldades podem voltar a apresentar forte crescimento quando recebem capital e passam por uma reestruturação adequada.
Um dos exemplos citados pelo executivo é a Foxx Haztec, posteriormente transformada na Orizon. Segundo Cruz, a empresa aumentou sua geração de caixa de cerca de R$ 80 milhões para mais de R$ 1 bilhão em menos de cinco anos.
O caso demonstra o potencial desse tipo de estratégia, embora o executivo ressalte que nem todos os investimentos terão resultados semelhantes.
O cenário atual, portanto, combina aumento dos riscos de crédito com o surgimento de oportunidades para investidores especializados. Com bancos e mercado de capitais mais restritivos, empresas que ainda possuem capacidade de recuperação podem buscar alternativas justamente nos fundos de special situations.
Deixe um Comentário