Economista Steve Hanke estima em até 80% a chance de dolarização da economia venezuelana, medida que poderia conter a inflação e estimular investimentos no país.
A Venezuela pode estar próxima de uma das maiores mudanças monetárias das últimas décadas: abandonar oficialmente o bolívar e adotar o dólar americano como moeda principal da economia.
A possibilidade ganhou força após o economista Steve Hanke, professor de economia aplicada da Universidade Johns Hopkins e assessor de uma importante liderança da Assembleia Nacional venezuelana, defender a adoção plena do dólar como solução para a inflação do país.
Hanke estima entre 50% e 80% as chances de a dolarização ser aprovada. Segundo ele, a mudança representaria a maior substituição de uma moeda doméstica por uma moeda alternativa desde a criação do euro, em 1999.
Para Hanke, o primeiro passo para recuperar a economia venezuelana é controlar a inflação. O país enfrenta uma inflação anual estimada em cerca de 400%, enquanto o bolívar perdeu aproximadamente 78% de seu valor frente ao dólar em apenas um ano.
A proposta prevê não apenas a substituição do bolívar pelo dólar, mas também o fim do Banco Central como instituição responsável pela emissão da moeda, eliminando a possibilidade de criação de dinheiro para financiar despesas do governo.
Na avaliação do economista, a estabilidade de preços seria fundamental para recuperar a confiança de consumidores, empresas e investidores.
Apesar de o bolívar continuar sendo a moeda oficial, o dólar já possui forte presença na economia venezuelana.
A chamada “dolarização espontânea” ocorreu à medida que consumidores e empresas passaram a utilizar a moeda americana para proteger seus recursos da desvalorização do bolívar.
Segundo Hanke, a maioria dos venezuelanos que não depende diretamente de salários, benefícios ou aposentadorias do governo utiliza dólares em suas atividades econômicas.
Esse processo informal poderia facilitar uma eventual transição para uma dolarização oficial.
A mudança também poderia ter impactos importantes sobre o setor petrolífero, principal fonte de receitas externas da Venezuela.
Hanke acredita que uma moeda estável poderia aumentar a confiança de investidores estrangeiros e estimular novos investimentos na produção de petróleo.
O aumento da produção e das exportações geraria mais dólares para a economia, ajudando o país a enfrentar sua elevada dívida.
A dívida venezuelana é estimada em aproximadamente US$ 250 bilhões, equivalente a cerca de 150% do Produto Interno Bruto (PIB).
A adoção do dólar, entretanto, não seria uma solução automática para todos os problemas econômicos do país.
Um dos principais obstáculos seria a perda do Banco Central como emprestador de última instância, além da transferência, na prática, da política monetária para o Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos.
A experiência de outros países também mostra que a dolarização exige disciplina fiscal e reformas econômicas para produzir resultados sustentáveis.
O próprio economista cita experiências anteriores em países como Equador e Zimbábue, onde o dólar foi utilizado para combater processos inflacionários.
Hanke avalia que a estabilização monetária poderia provocar uma queda das taxas de juros, facilitar o acesso ao crédito e estimular o consumo, o mercado imobiliário e os investimentos domésticos.
Se a medida for implementada rapidamente e acompanhada de reformas econômicas, o economista acredita que a Venezuela poderia deixar uma trajetória de crescimento negativo e voltar a apresentar crescimento econômico positivo já no próximo ano.
A possível dolarização, portanto, representa uma mudança de grande dimensão para a economia venezuelana e pode redefinir a relação do país com o sistema financeiro internacional, especialmente em um momento de busca por investimentos e recuperação da produção de petróleo.
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