Entradas recordes em fundos de ouro e criptomoedas reforçam a aposta de que a moeda americana pode perder força, mas analistas ainda divergem sobre uma mudança estrutural
O mercado começa a apresentar sinais mais concretos de que a tese de dólar fraco pode estar novamente ganhando espaço entre investidores. Na última semana, fundos negociados em bolsa (ETFs) de metais preciosos registraram entradas de US$ 4,6 bilhões, enquanto os fundos de criptomoedas receberam US$ 2,8 bilhões.
O movimento ocorre ao mesmo tempo em que o ouro atingiu seu maior nível desde meados de maio e o dólar acumula queda no mês frente às principais moedas globais.
A dinâmica reacende uma estratégia conhecida como debasement trade, baseada na expectativa de que o elevado endividamento dos Estados Unidos e possíveis intervenções para controlar os juros possam, no longo prazo, aumentar a pressão pela desvalorização da moeda americana.
Nesse cenário, investidores buscam ativos cuja oferta não pode ser simplesmente ampliada por governos, como ouro, commodities e Bitcoin.
O ouro aparece como um dos principais beneficiados pela mudança de posicionamento. Somente o GLD, maior ETF de ouro do mundo, recebeu aproximadamente US$ 3,4 bilhões na última semana.
O UBS avalia que a diversificação gradual dos investidores para fora do dólar deve continuar no médio e longo prazo. O banco projeta que a cotação do ouro possa alcançar US$ 5.400 por onça nos próximos 12 meses.
A demanda institucional também permanece elevada. O Banco Central da China adicionou 20 toneladas de ouro às suas reservas em julho, a maior compra mensal do país desde outubro de 2023.
Além do ouro, o UBS vê potencial para outras commodities, especialmente diante da demanda relacionada à infraestrutura, eletrificação e investimentos em inteligência artificial.
Apesar dos sinais recentes, a tese de dólar estruturalmente mais fraco ainda está longe de ser consenso.
O JPMorgan considera que a recente queda da moeda americana pode estar mais relacionada ao desmonte de posições do que a uma mudança definitiva de tendência.
Um dos argumentos do banco é que a recompra de títulos pelo Tesouro dos EUA não representa necessariamente uma impressão de dinheiro, já que envolve a troca de títulos antigos por novos, sem necessariamente gerar nova liquidez no sistema bancário.
Além disso, o volume das recompras seria pequeno diante do tamanho do mercado de Treasuries e da dívida pública americana.
Para o JPMorgan, também faltam alguns sinais tradicionalmente associados a um cenário de deterioração estrutural da moeda, como uma forte desancoragem das expectativas de inflação.
O mercado agora volta sua atenção para os próximos indicadores econômicos dos Estados Unidos.
O índice de preços de gastos com consumo, o PCE, será importante para medir a trajetória da inflação e ajudar a definir as expectativas para a política monetária do Federal Reserve.
Outro evento relevante será o discurso de Kevin Warsh, presidente do Fed, em Jackson Hole. Um tom mais rígido em relação à inflação e aos juros pode reduzir o apetite por ouro e ativos de risco, enquanto uma postura mais favorável à flexibilização monetária poderia reforçar a pressão contra o dólar.
No Brasil, a valorização do real já reflete parte do movimento global de enfraquecimento do dólar. A moeda brasileira acumulou alta de 6,1% no ano, enquanto a curva de juros futuros também recuou.
O Ibovespa, porém, ainda não demonstra uma entrada consistente de capital estrangeiro.
Na semana passada, houve saída líquida de R$ 8,4 bilhões de investidores estrangeiros da B3. Em agosto, o saldo negativo chegou a aproximadamente R$ 22 bilhões.
Apesar disso, o mercado brasileiro continua negociando com desconto. O Ibovespa está avaliado em cerca de 8,1 vezes o lucro projetado para os próximos 12 meses, aproximadamente 21% abaixo da média dos últimos dez anos.
O cenário, portanto, combina dólar mais fraco, ouro fortalecido, maior procura por criptoativos e ativos brasileiros descontados, mas ainda sem evidências suficientes para afirmar que uma nova tendência estrutural contra o dólar já esteja consolidada.
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