Movimento de partidos do Centrão pode reduzir o poder de barganha do Executivo e aumentar a influência do Congresso a partir de 2027.
Partidos do chamado Centrão estão adotando uma estratégia diferente na eleição presidencial de 2026. Em vez de concentrar esforços em um candidato ao Palácio do Planalto, diversas siglas decidiram manter neutralidade na disputa nacional e priorizar a eleição de deputados e senadores.
A estratégia envolve partidos como Republicanos, MDB, Podemos, PSDB-Cidadania e a federação União Progressista. Com a neutralidade, as legendas ficam livres para apoiar diferentes candidatos nos Estados, preservando espaço para negociações futuras.
Segundo especialistas ouvidos pelo Poder360, o movimento representa uma tentativa de fortalecer o Legislativo e diminuir a dependência dos partidos em relação ao governo federal.
A lógica é aumentar o tamanho das bancadas na Câmara e no Senado para garantir maior acesso a recursos públicos, incluindo fundo eleitoral e emendas parlamentares.
Para o cientista político Creomar de Souza, da Fundação Dom Cabral, o movimento demonstra que o pragmatismo do Centrão passou a priorizar a força das bancadas, independentemente de quem vencer a eleição presidencial.
A estratégia também reduz o risco de os partidos investirem recursos em uma candidatura nacional que pode não chegar ao segundo turno ou vencer a eleição.
A neutralidade representa um revés para Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência, que perde o apoio formal de algumas legendas e, consequentemente, parte do tempo de propaganda eleitoral que poderia obter por meio de uma coligação.
O cenário também evidencia dificuldades para o senador reproduzir a capacidade de articulação política de seu pai, Jair Bolsonaro.
Especialistas avaliam que Flávio ainda possui apoio de importantes lideranças do Centrão, mas enfrenta dificuldades para construir uma aliança nacional ampla.
Para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, uma eventual reeleição poderá trazer um desafio adicional.
Caso as bancadas do Centrão saiam fortalecidas das eleições, o próximo governo poderá encontrar um Congresso com maior autonomia e poder de negociação.
A relação entre Executivo e Legislativo já é marcada por disputas envolvendo emendas parlamentares, orçamento e distribuição de recursos.
Lula chegou a sinalizar uma postura mais combativa na relação com o Congresso ao defender que não pretende repetir uma postura considerada excessivamente conciliadora.
A neutralidade nacional não significa que os partidos deixarão de apoiar candidatos à Presidência nos Estados.
Pelo contrário: diretórios estaduais poderão declarar apoio a Lula ou Flávio de acordo com seus interesses regionais.
Esse modelo permite que uma mesma legenda mantenha posições diferentes em diferentes Estados, preservando alianças locais e aumentando sua margem de negociação.
No caso do Republicanos, a decisão de permanecer neutro também pode estar relacionada ao comportamento do eleitorado evangélico.
O cientista político Aldo Fornazieri, da USP, avalia que mudanças dentro desse segmento levaram o partido a adotar uma posição mais cautelosa em relação ao bolsonarismo.
A legenda busca manter influência sobre diferentes grupos e evitar uma associação automática com apenas um candidato presidencial.
O Progressistas também abandonou o apoio formal a Flávio Bolsonaro.
O presidente nacional do partido, Ciro Nogueira, havia declarado apoio ao senador em fevereiro, mas posteriormente passou a defender uma posição neutra.
A mudança ocorreu em meio a desgastes políticos e dificuldades nas negociações entre o PL e o PP.
O tamanho do poder do Congresso a partir de 2027 dependerá diretamente do resultado das eleições legislativas.
Além da composição das bancadas, especialistas apontam que decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre as emendas parlamentares também poderão influenciar o equilíbrio entre os Poderes.
Caso o Legislativo mantenha maior controle sobre recursos orçamentários, os partidos poderão ampliar sua autonomia em relação ao Executivo.
Dessa forma, a neutralidade adotada pelo Centrão pode ser mais do que uma estratégia eleitoral. O movimento sinaliza uma tentativa de fortalecer o Congresso independentemente de quem ocupará o Palácio do Planalto a partir de 2027.
Em um eventual quarto mandato de Lula, o cenário pode resultar em uma relação mais tensa entre Executivo e Legislativo, com um Congresso fortalecido e menos dependente do governo federal.
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