Novo programa de renegociação de dívidas e restrições às apostas podem favorecer os bancos, enquanto analistas alertam para o risco moral e os efeitos sobre o crédito.
O lançamento do Desenrola 3.0 e as medidas de restrição às plataformas de apostas online podem beneficiar os bancos brasileiros, especialmente aqueles com maior exposição ao crédito sem garantia. Entretanto, analistas alertam para o risco de novas renegociações incentivarem o atraso nos pagamentos.
Segundo avaliações do Goldman Sachs, JPMorgan, UBS BB e Bradesco BBI, as medidas podem contribuir para a recuperação de créditos e a melhora da capacidade de pagamento das famílias, embora os efeitos variem entre as instituições financeiras.
Desenrola 3.0 pode movimentar até R$ 150 bilhões
O novo programa prevê a aquisição de carteiras de crédito inadimplentes, com limite de gastos públicos de R$ 15 bilhões. As operações deverão oferecer descontos de pelo menos 90%, o que, segundo estimativas do Bradesco BBI, pode envolver dívidas com valor de face de até R$ 150 bilhões.
O foco está em créditos vencidos há mais de 720 dias e há menos de 1.645 dias, limitados a R$ 10 mil por dívida. A iniciativa pode permitir que os bancos recuperem parte de valores já baixados como prejuízo, com possíveis reflexos nos resultados do quarto trimestre de 2026.
Nubank e Inter têm exposição relevante
O Bradesco BBI estima que o mercado potencialmente elegível ao programa alcance R$ 23,1 bilhões no Nubank, equivalente a 11% de sua carteira, e R$ 2,4 bilhões no Banco Inter, correspondentes a 4%.
Segundo as projeções da instituição, as recuperações incrementais poderiam chegar a R$ 2,3 bilhões para o Nubank e R$ 239 milhões para o Inter, dependendo das condições de implementação do programa.
Restrição às apostas pode favorecer o crédito
A restrição às plataformas de apostas também pode beneficiar o setor financeiro, ao potencialmente liberar parte da renda das famílias para o pagamento de dívidas.
O UBS BB avalia que a medida pode contribuir para melhorar a qualidade do crédito, especialmente entre consumidores de baixa renda, enquanto o Goldman Sachs destaca os possíveis efeitos sobre bancos com maior exposição a cartões de crédito e empréstimos pessoais.
Risco moral permanece no radar
Apesar dos possíveis benefícios, o JPMorgan e o UBS BB alertam para o risco moral associado à recorrência dos programas de renegociação. A expectativa de novas oportunidades para renegociar dívidas pode incentivar alguns consumidores a atrasar pagamentos.
A experiência de programas anteriores também gera questionamentos sobre a sustentabilidade dos resultados. Segundo o JPMorgan, o Desenrola 2.0 não impediu que a inadimplência permanecesse elevada, mesmo após a renegociação de volumes expressivos de dívidas.
Além disso, os analistas apontam possíveis riscos regulatórios e tributários, incluindo eventuais mudanças nas exigências de capital para operações de crédito e discussões sobre a arrecadação de impostos.
As medidas podem proporcionar oportunidades de recuperação de crédito para as instituições financeiras, mas seus efeitos de longo prazo dependerão das regras de implementação, do comportamento dos consumidores e da evolução da inadimplência.
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